
Marques de Dion, um proeminente pioneiro frances
27 de fevereiro de 2014
Em 1886, na Alemanha, foi concedida pela primeira vez uma patente para um automovel. Com isso, o pais conquistou uma posicao importante na historia do automovel e reivindica ter inventado o automovel.
O pais vizinho Franca tinha, porem, uma vantagem na area tecnologica. Um dos pioneiros franceses mais proeminentes daquela epoca foi o Marques de Dion, que inicialmente, junto com os senhores Bouton e Trepardoux, desenvolveu automoveis movidos a maquinas a vapor, mas depois, apenas com Bouton, passou a se dedicar a veiculos com motor de combustao interna.

Albert de Dion nasceu em 1856, descendente da nobre familia De Dion, que remonta ao seculo 13. Desde cedo ficou claro que o conde tinha grande interesse por objetos mecanicos e especialmente por maquinas a vapor. Seu interesse nao era compartilhado pelos pais, que o enviaram para uma escola em Munique para aprender alemao. Depois desses estudos, ele ficou em Paris, onde aproveitou intensamente a boa vida e rapidamente ganhou a reputacao de playboy. Porem, seu interesse pela tecnica permaneceu intacto. Mais ainda, quando em 1882 ele viu na vitrine de uma loja de brinquedos tecnicos uma miniatura de maquina a vapor, foi como se tivesse reencontrado um antigo amor. O proprietario da loja era um certo Trepardoux. A porta foi aberta pelo cunhado de Trepardoux, um tal de Bouton. Eles comecaram a conversar e logo ficou claro que os tres cavalheiros tinham as mesmas ideias sobre um veiculo com tracao mecanica. A primeira ideia de De Dion foi construir uma bicicleta com motor auxiliar. Mais tarde isso se tornou uma chamada locomotiva de estrada. Esse conceito foi chamado de "Lidee Automobile".
De Dion contratou os dois cavalheiros e comecou o desenvolvimento de um veiculo. Entre 1883 e 1936, a empresa 'De Dion, Bouton & Trepardoux' registrou, em seu proprio nome ou em nome do proprio De Dion, 394 patentes francesas. No entanto, os primeiros experimentos tiveram pouco sucesso e resultaram, entre outras coisas, na explosao de uma caldeira. Isso levou o pai de De Dion a negar-lhe o acesso a sua fortuna e a conceder-lhe apenas uma mesada!
Pouco tempo depois foi produzido o primeiro veiculo de quatro rodas, La Marquise, em acao na imagem abaixo, do qual ummodelo um pouco mais recente de 1887pode ser visto no Museu Louwman.

O sonho de um veiculo parecido com uma bicicleta para uma so pessoa foi realizado pouco tempo depois. Uma pequena maquina a vapor acionava um triciclo com lugar para uma pessoa. Como o motor estava montado na frente, foi necessario desenvolver um sistema de direcao em que as rodas dianteiras apontassem ao mesmo tempo para o mesmo lado. O assento do condutor tinha suspensao e o veiculo usava pneus de ar (Michelin). O veiculo foi um sucesso e, em 10 anos, De Dion tinha realizado o seu sonho. Ate o pai dele percebeu isso e perdoou seus pecados anteriores. Ele podia voltar a dispor do proprio dinheiro!
Apesar desse sucesso, algo incomodava De Dion. Ele tinha visto os motores de combustao e ficara muito impressionado. Bouton ainda nao tinha se dado conta disso, mas Trepardoux era fortemente contra. Um conflito dentro do trio ameaçava surgir. Agora que voltara a ter acesso ao seu dinheiro, De Dion montou em outro lugar de Paris uma oficina onde queria desenvolver suas ideias para um motor de combustao. Junto com o tecnico Delalande, De Dion projetou e construiu varios motores extremamente avancados. Ele encontrou inspiracao nos motores que Benz e Daimler exibiram na Expo de Paris em 1889.
Curiosamente, os primeiros motores que ele construiu foram um motor rotativo de quatro cilindros e um motor radial de doze cilindros, adequados para avioes. Nao se sabe ao certo por que essa escolha foi feita, mas e certo que De Dion solicitou e obteve, em seu proprio nome, a patente desses motores. Tudo isso aconteceu em 1889. Somente 20 anos depois essas configuracoes de motor se tornaram mais ou menos comuns.
Alias, a outra filial da De Dion continuou com a producao de veiculos de alta qualidade movidos a vapor.
A cooperacao com a Delalande foi frutifera. Eles tambem projetaram e construiram um motor relativamente pequeno, com cilindrada de 173 cc. Graças a um sistema de ignicao desenvolvido por De Dion, esse pequeno motor revelou-se capaz de atingir regimes de rotacao ate entao inimaginaveis. Enquanto pouco menos de 1000 rotacoes por minuto (rpm) ja era considerado muito bom na epoca, este chegava a nada menos que 3000 rpm! Essa unidade de potencia era ideal para o sonho que De Dion tinha em mente: um meio de transporte pequeno e simples para qualquer pessoa (que pudesse pagar por ele, claro). O conceito original de um triciclo, portanto, atendia perfeitamente. Neste caso, eram duas rodas atras e uma na frente, exatamente o contrario da "moto a vapor". Assim nasceu o famoso De Dion Tricycle .

O Tricycle tornou se um grande sucesso. Comecou se a participar em corridas em que tambem participavam carros comuns. Tambem aqui o sucesso nao tardou. Mesmo enfrentando oposicao muito mais forte, foram alcancados bons resultados.
De Dion nao era apenas um tecnico talentoso, como condutor tambem se destacava. Ele era membro do prestigioso Jockey Club de France, uma organizacao que promovia corridas de cavalos. Seguindo o exemplo da prova de confiabilidade de Paris a Rouen em 1894, De Dion organizou a prova de resistencia seguinte, o percurso de Paris a Bordeaux e volta (vencido por Levassor em um Panhard et Levassor).
De Dion considerava que para o automobilismo e outras atividades relacionadas ao automovel deveria existir uma organizacao abrangente que orientasse adequadamente os diversos desenvolvimentos no campo automotivo. Para isso, ele fundou, junto com alguns conhecidos seus (entre eles Emile Levassor, os irmaos Peugeot e James Gordon Bennett), o Auto Club de France (ACF). Essa organizacao passaria a organizar corridas, aproveitando bem a experiencia que alguns dos fundadores tinham com corridas de cavalos.
Alem de corridas, a ACF organizava desde 1896 tambem exposicoes como o Salon de lAutomobile no Grand Palais em Paris. Naquela epoca era uma das exposicoes mais importantes do mundo. A ACF serviu de exemplo para muitos clubes de automoveis em outros paises. No fim, da ACF surgiu a Federacao Internacional do Automovel (FIA).
De Dion tinha pegado o gosto. Ele mobilizou os fabricantes franceses de automoveis em uma associacao, para assim, entre outras coisas, poder promover melhor a popularidade do automovel. Essa associacao, chamada Chambre Syndicale de l’Automobile, ainda existe. A aviacao tambem o interessava. Ele fundou o Aero Club de France, bem como uma Associacao de Fabricantes de Avioes.
Esses desenvolvimentos fizeram com que De Dion se tornasse uma pessoa cada vez mais influente na Franca, nao so nos negocios, mas tambem nos meios da alta sociedade. No entanto, ele nunca perdeu de vista a propria empresa. No inicio dos anos mil e novecentos, a De Dion Bouton era uma das maiores fabricantes de automoveis e motores do mundo. Em 1906, produziu 2500 carros e, em anos posteriores, chegou a 6000, mesmo antes da invencao da linha de montagem.
Uma fonte de irritacao para os automobilistas era a falta de mapas rodoviarios. Esse problema tambem foi enfrentado com determinacao por De Dion e, em pouco tempo, De Dion passou a dispor de mapas rodoviarios bastante bons, que eram fornecidos como acessorio com o carro. Os outros fabricantes protestaram contra isso, apos o que De Dion vendeu essa divisao a uma parte neutra, a Michelin.
Em 1900, o jornal Le Velo iniciou um ataque a De Dion. Le Velo tinha ligacoes com o clube concorrente lUnion Automobile e, na pratica, tratava se de uma disputa de poder comum. Como resposta, De Dion fundou o seu proprio diario, lAuto Velo. A parte Velo teve de ser retirada do nome mais tarde, mas isso so aconteceu depois de o jornal ter assumido a organizacao de uma grande corrida de ciclismo em Franca, o Tour de France. No periodo entre as guerras, o nome foi alterado para LEquipe, que continua ate hoje a ser um jornal desportivo de grande destaque.
Esses desenvolvimentos nao significaram que o progresso tecnico na De Dion tivesse parado. Apesar da saida de Trepardoux, a De Dion ainda produzia grandes locomotivas rodoviarias que puxavam pesados vagoes com mercadorias ou passageiros.

Tambem por causa das estradas ruins, acontecia com certa frequencia de as rodas de raios quebrarem devido ao grande torque que esse tipo de maquina a vapor produzia. Foi desenvolvido entao um eixo em que essas forcas eram distribuidas de forma mais equilibrada, o chamado eixo De Dion. O eixo De Dion e talvez a patente mais conhecida de De Dion.

Ele ainda e usado em carros de passeio e de corrida para garantir que os pneus mantenham o melhor contato possivel com a estrada.
O sucesso dos (descendentes do) "motor original" foi grande. Muitos fabricantes de automoveis iniciantes, como a Renault, usaram os motores da De Dion nos primeiros anos antes de mais tarde desenvolverem seus proprios motores. Continuou-se construindo um motor monocilindrico, depois de dois e quatro cilindros e, por fim, um oito cilindros em V (V8)! E isso em 1909! Ao longo dos anos, esse motor foi sendo aperfeicoado ate se tornar uma fonte de potencia que funcionava de forma muito suave e com muito torque. Ja antes, os motores mais simples tinham sido exportados para muitos paises, incluindo os Estados Unidos. O V8 tambem encontrou seu caminho para esse pais, chegando a marca entao ja renomada Cadillac. A Cadillac refinou o conceito e desenvolveu o motor que hoje esta inseparavelmente ligado ao automovel americano.
As coisas iam cada vez melhor com a De Dion Bouton. A producao de automoveis aumentou de forma constante nos anos imediatamente anteriores a Primeira Guerra Mundial. Em determinado momento, mais de 4000 homens trabalhavam na fabrica da De Dion. Nao so ainda se produziam os simples veiculos de tres e quatro rodas, como a producao de automoveis de luxo e de maior porte tambem ia bem. A De Dion chegou a experimentar com carros eletricos, mas o enorme peso das baterias e a autonomia limitada o desanimavam.
A eclosao da Primeira Guerra Mundial nao favoreceu a producao de automoveis de passeio e o fornecimento de magnetos para a ignicao de motores a combustao foi completamente interrompido. Robert Bosch, da Alemanha, era o maior e melhor fabricante desse tipo de produto. A De Dion Bouton tambem produzia sistemas de ignicao e preencheu a lacuna que surgiu.
Apos a guerra, a empresa passou a se concentrar em carros de luxo. Os modelos lancados no mercado eram sem inspiracao e tampouco inovadores. A producao nunca mais voltou ao nivel dos anos anteriores a 1914. Por fim, em 1932, a empresa fechou as portas.
De Dion e Bouton sobreviveram a sua empresa e morreram em idade avancada, em 1938 e 1946, respetivamente.
Peter Helbach